Nascido e criado no Rio Grande do Sul, é jornalista, escritor e tradutor, tendo passado por várias redações do Rio de Janeiro, onde vive de frente para o mar de Copacabana. O bairro é o cenário de um romance em fase de finalização.
Como ficcionista, tem uma linguagem direta e contundente que lhe valeu prêmios, entre eles o Jabuti de melhor romance nacional de 1986. Participou de mais de uma dezena de antologias de contos no Brasil e no exterior.
Livros
- No próximo verão – Copacabana (inédito).
- Com A idade da paixão, história de formação ambientada nas pensões da Porto Alegre (Ed. José Olympio), ganhou o Jabuti. Reescrito, o livro foi relançado pela Editora Bertrand em 2006, em edição comemorativa.
- Lobos (Record), romance de 1997, retrata a vida nas redações e nos quartéis durante a ditadura brasileira e foi lançado na Itália, pela Editora Fabula, com o titulo Lupi.
- Seu conto O executante ganhou o Concurso Jerônimo Monteiro de Contos de Suspense e Ação, e deu nome à coletânea de literatura noir (Record, 2000), finalista do Prêmio Jabuti.
- Jacarés ao sol (Ed. Ática, contos)
- Não acreditem em mim ¬- Memórias dos Anos Dourados (Ed. Saraiva).
RUBEM MAURO MACHADO

Entrevista Rubem Mauro Machado ao jornal Rascunho, abril de 2013.
• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Com oito, nove anos, enchia cadernos com histórias que inventava. E à noite convertia minhas duas irmãs e meu irmão em auditório, para ouvirem narrativas que improvisava na hora. Até hoje eles se lembram de situações e personagens que criei, à espera de que nossos pais voltassem do cinema. Fabular e escrever sempre foram para mim atos compulsivos. Toda vocação é uma coisa meio misteriosa.
Quais são suas manias e obsessões literárias?
Não acredito que as tenha. Apenas sou dono de uma disciplina natural para o trabalho. Quase todo dia escrevo alguma coisa, por prazer ou obrigação. Posso passar meses sem fazer ficção, mas quando começo, trabalho todas as manhãs.
• Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
A dos jornais e/ou sites de notícias. Talvez decorrência do meu oficio de jornalista, tenho necessidade vital de estar conectado com o mundo.
• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Acho que todo brasileiro deveria ser obrigado a ler “Casa Grande & Senzala”. Embora algumas posições de Gilberto Freire sejam hoje contestadas, o retrato assustador que faz do Brasil colônia nos ajuda a entender um pouco a selvageria da sociedade brasileira em que vivemos.
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Em solidão e silêncio. Mas quem quer de fato escrever, ou fazer qualquer outra coisa, é capaz de trabalhar e criar em quaisquer circunstâncias. Faulkner escreveu um de seus primeiros romances enquanto trabalhava como vigia noturno. Tchecov criou sua obra poderosa nos intervalos do trabalho como médico.
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Leitura também é um ato criativo. Exige concentração, portanto, como na escrita, pede solidão e silêncio, artigos cada vez mais desvalorizados no mundo de hoje.
• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Ao produzir um texto, ou uma fatia de texto, seja lá de que tipo, sinto-me justificado, sinto que meu dia não foi em vão.
• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Hoje em dia é trabalhar o texto, demorar-me nele, testar seus limites e possibilidades. Mas esse lento degustar só veio com a idade, é coisa da maturidade. Eu aprendo muito devagar.
• Qual o maior inimigo de um escritor?
A pressa, em primeiro lugar. E em segundo, a auto-suficiência. O fato de um autor criar uma obra-prima não significa que seu livro seguinte não possa ser muito inferior ou mesmo ruim. Há numerosos casos de excelentes escritores que lançaram porcarias, por vezes inacreditáveis. Cada leitor com certeza terá a sua lista.
• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O meio literário, como qualquer outro, não está fora da sociedade em que se inscreve, reflete suas virtudes e defeitos. É só enumerar os principais defeitos da sociedade brasileira e você os verá refletidos no establishment literário.
• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Há muita gente boa escrevendo neste país. Apontar nomes é trabalho que deixo para a crítica. O problema é fazer as obras chegarem ao conhecimento do público, já que cultura e literatura verdadeira não interessam aos meios de comunicação de massa. A situação já é bem melhor na França ou na vizinha Argentina. O que penso sobre o assunto está expresso no artigo “A mídia e a mulher barbada” e no conto “O misterioso escritor Juan Uranga”, ambos publicados aqui mesmo no Rascunho e replicados amplamente na internet.
• Um livro imprescindível e um descartável.
Não acredito em livros sagrados. Mas o teatro grego talvez seja em seu conjunto a suprema realização literária de todos os tempos. Descartável? É só ir à seção de best-sellers de qualquer livraria e pegar qualquer livro, de olhos fechados. Mas devo dizer que não sou contra a literatura de entretenimento.
• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O que é um defeito em literatura? Há pessoas que acham Proust tedioso. Ou Machado de Assis. O que fazer? A singularidade desses autores é redutível a explicações simplistas? Escritores cometem equívocos, claro. Acredito que Tolstoi cometeu um erro grave de avaliação ao prolongar “Guerra e Paz”, ao esticar a história de Natasha e outros personagens, quando o romance obviamente termina umas 60 páginas antes. Mas isso invalida uma das maiores obras da literatura universal?
• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
A literatura tem o tamanho da experiência humana. Isso significa que nenhum tema lhe está vedado. Para minha própria surpresa, escrevi recentemente um conto sobre pedofilia, “Sabonete de amêndoas”, que incluí no livro inédito “Um único tiro”. Jamais imaginei que um dia me ocuparia do tema. Dizer que ele às vezes nos escolhe já virou um lugar-comum.
• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
O canto de mundo em que vivo e passei a maior parte de minha vida é a praia de Copacabana. Ela é cenário e personagem de romance que estou finalizando, “No próximo verão” (título provisório), depois de anos de trabalho e várias versões descartadas.
• Quando a inspiração não vem...
Só escrevo quando possuído por uma idéia. Ela sempre precede o texto. Assim, não tenho esse tipo de problema. Textos não ficcionais não necessitam de inspiração, apenas de trabalho duro.
• Qual escritor - vivo ou morto - gostaria de convidar para um café?
Pergunta complicada: o escritor preferido poderia não ser o melhor papo. Adoraria conversar com Graciliano. Mas talvez ele apenas ficasse me olhando enviesado, pitando em silêncio o seu palheiro. Então prefiro retomar a conversa interrompida que tive com Jorge Luiz Borges em Buenos Aires, motivo de uma crônica, mais uma vez publicada aqui no Rascunho.
• O que é um bom leitor?
Acima de tudo, o que se envolve, se emociona com o texto. A literatura de que mais gosto é a das grandes paixões. Não à toa, “O vermelho e o negro” é um de meus romances prediletos.
• O que te dá medo?
O que mais me assusta é a ferocidade humana.
• O que te faz feliz?
A companhia da amada, ler, escrever, ouvir música, ir ao cinema e ao teatro, jogar futebol (quando jovem), dançar, jantar com amigos, viajar. Será que precisamos de muito mais do que isso?
• Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Tenho muito mais dúvidas do que certezas, no trabalho e na vida.
• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Que eu possa dar o melhor de mim.
• A literatura tem alguma obrigação?
Só me ocorre uma: a de ser útil a alguém.
• Qual o limite da ficção?
Já respondi, quando disse que ela equivale à experiência humana. Parodiando Marx, nada que fale aos homens lhe é indiferente.
• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Aos banqueiros de Wall Street. Afinal de contas, não são eles que de fato governam o mundo?
• O que você espera da eternidade?
Nada. A eternidade tem a exata duração de nossa curta existência.