Mineira, antes de estrear na ficção atuou como jornalista nas principais redações do Rio de Janeiro. Foi no JORNAL DO BRASIL repórter especial do caderno B; colunista titular do Informe de Arte; editora da revista Domingo e do caderno B. Criou o periódico Papel das Artes, especializado na produção artística contemporânea.
Livros
Publicou em 2005 A menina que não viu
o fim do mundo (Rocco), contemplado
com o selo de recomendação da
Fundação Nacional do Livro Infanto-
Juvenil e do qual tem feito inúmeras
leituras em escolas.
Em 2012 lançou o romance Regente
Plutão e o infanto- juvenil O mistério
do bolso furado, ambos pela Record.
Está finalizando um romance de formação, Liberdade ainda que à tardinha, e o infantil Pingo no I.
CLEUSA MARIA
Resenha de Lucia Bettencourt
(escritora, autora de “Linha de sombra”, entre outros)
No primeiro romance da jornalista Cleusa Maria, pessoas solitárias se encontram, numa sombria noite de réveillon, próximas no espaço físico, mas em mundos tão distantes quanto a órbita de Plutão, o regente do signo de Escorpião. Num cenário estranhamente vazio — não há movimento nas ruas, não há luzes nas casas, embora todos saibam que é noite de comemorações — quatro personagens evoluem até as últimas consequências.
Violante, de 48 anos, arquiteta rodeada de confortos e riquezas conseguidos com disciplina e dedicação, vagueia por sua cobertura e observa o casarão de janelas coloniais em frente, habitado por um homem. A narrativa sofisticadamente entremeia músicas (o próprio nome da personagem remete a um instrumento musical), citações literárias e filosóficas, além de aproveitar-se de imagens de quadros célebres. As descrições remetem a telas famosas de Hopper ou, mais explicitamente ainda, de Manet, que sublinham a solidão e a impenetrabilidade de Irene/Suzon, pivô de um triangulo amoroso.
Escrito com elegância e fluidez, o romance alterna pessoas e pontos de vista, de maneira a desvelar os percursos da memória das personagens e traçar as veredas de suas emoções. Dividido em três partes, a primeira (o encontro) apresenta as duas personagens, Violante e Lúcio, que se ligam pelas telas virtuais e que se observam ao vivo, sem saber. Na segunda parte (o corte), Irene e Enon se apresentam, utilizando a mesma alternância de pessoas narrativas e pontos de vista, recurso que dá maior profundidade a seus perfis psicológicos. As verdades surgem a custo, em pequenas doses, flashes de uma luz sombria que revela a desolação de vidas despedaçadas.
A parte final do romance (dissolução) reúne todas as malhas da trama, mas se recusa a tecê-las. Longe da precisão jornalística, a linguagem utilizada é simbólica, mística, plena de referências a universos que se ligam não apenas às atividades das personagens, mas também às preferências exibidas nos monólogos com que recheiam


suas solidões.explica a inexorabilidade de seus destinos: eles foram marcados, suas órbitas estão traçadas e suas naturezas os impedem de escapar de suas respectivas solidões.
A leitura do romance remete a uma visão de mundo equilibrada pela beleza da arte, embora desencantada e fatalista como a sociedade perdida que retrata.
Na expectativa da chuva e da mudança de ano, as personagens se embriagam e se perdem em divagações. A autora, tal qual um maestro, rege a sinfonia de sons e de fúria e, impiedosa, vitima a todas suas criaturas. Confirmando a epígrafe escolhida, Cleusa Maria deixa que cada qual siga de encontro a seu destino. Embora a narrativa ofereça indícios do que está para vir, ninguém dentro do romance consegue decodificar os sinais e as fraturas. Quando Violante percebe que, sobre a vida “construída à custa do equilíbrio e da harmonia, alguma viga despencara do concreto”, já não há possibilidade de emenda, embora ainda haja tempo para sua salvação. Sua escolha, no entanto, é o abandono. Para ela, as emoções da arte terão que ser suficientes. Violante é a observadora de sua própria derrocada.
A força da história de Cleusa Maria está na riqueza de elementos que a compõem. As inúmeras referências artísticas, filosóficas e míticas enleiam as personagens num mundo de misérias encobertas pela sofisticação da arte e o consolo um tanto cínico da filosofia. O livre arbítrio de que a autora desfruta, escolhendo mudar as vozes narrativas, compor diálogos ágeis ou recorrer a flashbacks e memórias, é negado aos quatro seres tolhidos pelos caprichos de seus passados marcados por perdas. E isso explica a inexorabilidade de seus destinos: eles foram marcados, suas órbitas estão traçadas e suas naturezas os impedem de escapar de suas respectivas solidões.
A leitura do romance remete à uma visão de mundo equilibrada pela beleza da arte, embora desencantada e fatalista como a sociedade perdida que retrata.
(Globo on-line)
Regente Plutão
