O jornalista e escritor José Augusto Ribeiro, um dos maiores conhecedores da história política brasileira, é leitor voraz e pesquisador meticuloso. Sua carreira começou no Diário Carioca e O Cruzeiro, prosseguiu no Jornal do Brasil e em O GLOBO. Deste foi Editor-Chefe de 1972 a 1979, deixando essa função para ser colunista político do jornal.
Trabalhou também, como comentarista político, entrevistador e repórter, na Rede Globo e na Rede Bandeirantes. Foi assessor de imprensa do Presidente Tancredo Neves, na campanha de 1984-85, tendo acompanhado todos os passos de sua trajetória, e do Governador Leonel Brizola, candidato a Presidente em 1994.
LIVROS
- Seu último livro, Tancredo Neves, a Noite do Destino,
com revelações e fatos inéditos, será publicado pela
Civilização Brasileira, do grupo editorial Record, em 2014.
- A Era Vargas (2001), em 3 volumes;
- De Tiradentes a Tancredo, uma história
das Constituições do Brasil (1987);
- Nossos Direitos na Nova Constituição (1988);
Curitiba, a Revolução Ecológica (1993).
JOSÉ AUGUSTO RIBEIRO


MIDIA
Entrevista concedida por José Augusto Ribeiro a Elio Gaspari sobre o livro A Era Vargas:
Fonte: Site do PDT
— O senhor começa seu livro dizendo que a marca de Getúlio na política brasileira foi tão funda que a Era Vargas já foi dada por morta várias vezes e sempre reaparece. O último a anunciar o seu fim foi FFHH. Ela acabou? Vai acabar algum dia?
— Getúlio matou-se em 1954 e a Era Vargas ainda está aí assombrando as pessoas, porque ela tem pouco de Vargas e muito de Brasil. Essa expressão confunde-se com a idéia de um projeto nacional, da busca do desenvolvimento industrial e do interesse pela vida dos trabalhadores. Disso o Brasil não se livra.
A ditadura militar tinha um conteúdo anti-Vargas, mas a partir de certo momento teve um projeto nacional, uma política de desenvolvimento. Quando você chega ao dia 1 de maio de 1976, vê o Geisel em Volta Redonda dirigindo-se aos “trabalhadores do Brasil”, exatamente como Vargas, no mesmo lugar, no mesmo dia, com as mesmas palavras. Fernando Henrique anunciou o fim da Era Vargas, optou por uma ortodoxia liberal e há pouco, diante da crise, reconheceu a necessidade de mudanças na política econômica. Ideias não acabam.
— Getúlio matou-se ao cabo de uma campanha na qual seu governo foi desmoralizado por corrupto. Quanto disso era verdade?
— Muito pouco. Getúlio era muito escrupuloso. Quando convidaram a família dele para um desfile do costureiro Jacques Fath, em Paris, fez questão de que as despesas saíssem do seu bolso. Tancredo Neves me contou que examinou o inventário de Vargas. Ele saiu do poder com menos do que tinha ao chegar. Levava uma vida frugal. Tinha mordomo (chamava-se Zaratini), mas não tinha mordomia. Além disso, quem cunhou a expressão “mar de lama” não foi a oposição. Foi ele, num momento de perplexidade: “Tenho a impressão de estar pairando sobre um mar de lama”.
Fazem-se muitas injustiças na política. O Brasil teve grandes exemplos de probidade. Veja o caso do general Castello Branco, do professor Octavio Gouvêa de Bulhões, seu ministro da Fazenda. Ou o Roberto Campos, seu ministro do Planejamento. Até o dia em que adoeceu, trabalhou para viver. O capitalismo tem uma taxa básica de delinqüência, mas hoje a coisa está mais sistêmica. O Congresso nunca teve bancadas identificadas pelo nome dos interesses que defendem.
— A pergunta clássica: o que é que Getúlio tinha na cabeça quando levantou da cama, de pijama, e empunhou o cabo de madrepérola do Colt 38?
— A idéia do suicídio como arma. Era uma coisa antiga. Desde os anos 30 Vargas disse a muita gente que os suicidas eram covardes, salvo em casos como o do presidente chileno José Manoel Balmaceda, que se matou em 1891, para evitar uma guerra civil e para fortalecer seus correligionários e suas idéias.
Se a gente simplifica, Getúlio se matou porque soube que o ministro da Guerra concordara com sua deposição e aceitara continuar no governo de seu sucessor. Ou ainda porque recebeu a informação de que seu irmão tinha sido chamado a depor num IPM, que funcionava na Base Aérea do Galeão. Ele de fato recebeu essas duas informações, mas ambas eram falsas. Refletiam o acuamento a que chegara. Vargas se matou porque estava acuado e sabia que ao se matar mudaria essa situação. Como disse o professor Hélio Jaguaribe, retardou em dez anos o golpe de 1964.