Jornalista, escritor e professor da USP, Bernardo Kucinski é dono de uma vasta produção jornalística, tendo recebido um prêmio Jabuti por seu livro Jornalismo Econômico (Edusp). Foi assessor da Presidência da República no primeiro governo Lula. Entre 2000 e 2002 publicou no site Carta Maior as Cartas Ácidas, que se tornaram um clássico e podem ser lidas, como outros textos do autor, no site
Como ficcionista, seu primeiro romance, K. , foi finalista, em 2012, do Premio São Paulo de Literatura e do Portugal Telecom, e foi traduzido para inglês, alemão. espanhol e catalão. Também está sendo traduzido para o hebraico.
Livros
Bernardo Kucinski tem, inéditos, um volume de contos que será publicado pela Cosac Naify em 2014, os romances Mataram o presidente, Quem matou Alice ( a ser publicado pela Prumo em 2014) e O menino que amava cavalos (infantil).
- K (Expressão Popular, 2011)
- Diálogos da Perplexidade – Reflexões críticas sobre
a mídia (com Venício A. de Lima) Editora: Perseu Abramo - São Paulo, 2009
- Jornalismo na Era Virtual - Editora: UNESP - São Paulo, 2005
- Cartas acidas da Campanha do Lula de 1998,
São Paulo: Atelie Editorial, 2000 .
- Jornalistas e Revolucionarios. São Paulo: Edusp, 1991.
- O que são Multinacionais. São Paulo, 1991.
- Brazil Carnival of the opressed, Londres: Latina American Bureau, 1995.
- Pau de Arara, La Violence Militaire au Bresil, França: Cahiers Libres, 1971.
- Fome de Lucros, São Paulo: Brasiliense, 1977.
- The debt squads, Londres: Zed Books Ltd, 1988.
- A ditadura da divida, São Paulo: Brasiliense, 1987.
- A síndrome da antena parabólica, São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998...
- Brazil, sate and struggle, Londres: Latin America Bureau, 1982.
BERNARDO KUCINSKI


Comentários sobre K. de Bernardo Kucinski - Por Maria Rita Kehl (Publicado em 28/11/2011 | Carta Maior)
“Acendo a história, me apago em mim”; a citação de Mia Couto que abre o romance de Bernardo Kucinski ganha seu pleno sentido somente depois que o leitor chega à última página. “Apagar-se” na tentativa de acender uma história que nunca foi contada é uma imagem que sintetiza a epopéia do pai idoso à procura da filha desaparecida durante a ditadura militar brasileira. Mas é também a posição do próprio narrador: é possível que o estilo contido e preciso de Bernardo Kucisnki tenha sido construído à custa de um corajoso e calculado método de apagamento subjetivo.
Na medida em que avançava na leitura de K., aumentava em mim a impressão de que só assim, apagando-se, teria sido possível ao autor encontrar coragem para reconstituir o sofrimento do pai que procura em vão pela filha e se convence aos poucos de que nunca a reencontrará, nem terá direito a homenagear seus restos mortais. A contenção no estilo da narrativa, longe de aparentar frieza ou impessoalidade, coloca o leitor em permanente estado de alerta diante do campo minado do texto. Uma bomba de dor está para explodir no capítulo seguinte, no parágrafo seguinte, enquanto a brutalidade que a provocou se insinua, sistemática, a cada nova tentativa de K. encontrar notícias da filha e do genro desaparecidos.
É preciso coragem para conduzir a narrativa, e com ela, o leitor, pelos caminhos tenebrosos percorridos por quem procura notícias assim, a esmo, um pouco às cegas, sem saber em quem confiar, à mercê de armadilhas, chantagens, falsos informantes, delações. Caminhos que são eles próprios o avesso da vida. O avesso do que a vida deveria ser. Coragem para inventar o que mais se aproxima da verdade: a perspectiva subjetiva do inimigo. Pois a narrativa de K. reconstitui a voz do delator, do torturador, da amante do delegado e até daquele que se tornou símbolo do mal absoluto no Brasil da década de 1970: Sérgio Paranhos Fleury.
É preciso apagar-se um pouco para conseguir dar voz a quem certamente disse coisas como essas: “É isso aí, Mineirinho, vamos espalhar boatos de onde os corpos estão. (…) a gente solta um, dá um tempo, depois solta outro. Vamos matar esses caras de canseira”. (p.76). “…agora é hora de limpar os arquivos, não deixar prova. (…) Entregar a moça, onde é que esses caras estão com a cabeça? Mesmo que eles estivessem vivos, como é que eu ia entregar, depois de tudo o que aconteceu? Não é para acabar com as provas? Pois nós acabamos.” (p.77)
Talvez por isso, K. só pudesse ter sido escrito quarenta anos depois do acontecido. No prefácio de A grande viagem, o escritor espanhol Jorge Semprún escreve que precisou de 16 anos até obter o distanciamento necessário para descrever sua passagem por um campo de concentração nazista. Kucisnki precisou de mais tempo que isso, porque foi muito além da introspecção necessária para reconstituir o passado em primeira pessoa. Transportou-se por escrito para a perspectiva do pai, cada vez mais desesperançado e mais envelhecido, cada vez mais obstinado em fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para encontrar – o quê? Primeiro a filha; depois, notícias de sua morte; a seguir, pelo menos uma ossada que pudesse sepultar; no fim de tudo, o direito a uma matzeivá vazia no cemitério judaico onde apenas o nome se perpetuasse e evocasse a morte. Direito que também lhe foi negado pelo rabino, em nome da ortodoxia contida nos livros sagrados, assim como lhe foi negado pelo dono da pequena gráfica o direito de publicar um livrinho em memória da filha e do genro: “como o senhor se atreve a trazer material subversivo para a minha gráfica…?” (p.84). O pai se atreveu a isso e muito mais. O pai nem sabia de fato o quanto se atrevia. “O pai que procura pela filha desaparecida não tem medo de nada” (p….).
A enorme angústia do pai diante do desaparecimento da filha transforma-se aos poucos no desespero de não conseguir nem ao menos uma inscrição simbólica de sua existência. Esta virá na forma modesta de nome de rua em um loteamento na periferia do Rio de Janeiro, que um vereador de esquerda conseguiu batizar em homenagem aos desaparecidos políticos.
Na volta da cerimônia, K. se espanta ao passar por uma avenida batizada com o nome do criador do DOI-CODI, General Milton Tavares de Souza, também imortalizado numa das pontes sobre a marginal Tietê,em São Paulo. Estranhocostume dos brasileiros, pensa o velho, de “homenagear bandidos e torturadores e golpistas como se fossem verdadeiros benfeitores da humanidade” (p. 158).
O livro termina com uma crítica piedosa e elegante a respeito da intransigência da direção de certas organizações, na luta armada, que se recusaram a liberar seus militantes diante da obviedade da derrota e do massacre iminentes. Mas não é este o alvo principal do belo romance histórico de Bernardo Kucinski. Hoje, quando finalmente o Brasil anuncia a intenção de pelo menos investigar os responsáveis pelos crimes de Estado cometidos durante o regime militar (punir, como os argentinos, jamais!), K. deveria ser leitura obrigatória para todos os membros da nossa tímida Comissão da Verdade, criada com quatro décadas de atraso, no atual governo da ex-prisioneira política Dilma Roussef.